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“MAS VOCÊ NÃO ME PEDIU!”

#Direito da Mulher

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Quando eu estudava, sempre me envolvi em comissões de formatura, organizava festas para os professores e eventos. Na faculdade, fiz parte do movimento estudantil e estava em todas as mobilizações possíveis. Eu organizava, passava lista, recolhia dinheiro e também pagava. Você pode ter sido como eu, ou simplesmente achar que não valia a pena gastar seu tempo com essas coisas.

No trabalho ou na escola, você pode até escolher entre essas duas posturas, mas em casa a questão passa por papéis de gênero e é preciso pensar mais profundamente sobre o assunto.

Há alguns anos, eu estava em um relacionamento com um cara que muitos achavam MARA; e ele fazia questão de dizer que fazia tudo por mim, me dava presentes caros (que nunca eram o que eu pedia, mas sempre algo que pudesse ser exibido). Ao terminar o namoro, eu percebi que: eu tinha o cartão de crédito do rapaz, com o qual eu pagava todas as contas dele – água, luz, telefone. Eu marcava as consultas, o lembrava e o acompanhava. Eu era responsável por mobiliar a casa, por verificar se faltava algo, por contratar e pagar pessoas para ajudar nos afazeres domésticos. Para ele ficava a foto do post do jantarzinho de sexta que ele preparou.

Eu era o HD do cara. A metáfora é perfeita – quando você não tem mais espaço no seu drive, você faz o que? Investe em um HD externo, ora. A gente segue revivendo uma estrutura social que assume que metade das pessoas conseguem se cuidar e cuidar do outro e cuidar do espaço comum, enquanto a outra metade não consegue fazer nada disso.

E o pior é que essa conduta se baseia em uma perspectiva justificada por inúmeros instrumentos, mas dentre eles uma visão rousseauniana que garante ao homem o espaço público, externo, e à mulher o espaço privado. Assim, as mulheres precisam ser protegidas por homens na política, no mercado de trabalho e, em contrapartida, lhes oferecem toda sua capacidade de cuidar das casas e das famílias. Guarda ainda o aspecto do mito do amor materno de que todo esse cuidado é expressão do afeto feminino, fazendo com que qualquer postura diferente desta vire alvo de julgamentos às mulheres ou supervalorização masculina – quem aqui não conhece um cara que vira um super pai por fazer metade do que uma mãe “ruim” faz?

Essa discussão perpassa por várias outras. Mas por hoje, eu vou lançar apenas o desafio de entender como isso tem acontecido nas suas comunidades – casa e trabalho. Quem tem pensado na organização das coisas? Quem precisa pedir que o outro faça? Como tem funcionado a divisão dos trabalhos, especialmente do planejamento? Quem compra os presentes de natal?

Fica aí o questionamento.

 

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Escrito por:

Raíssa Vasconcelos

Acolhimento e coragem para a luta da efetivação dos direitos das mulheres.